Acabei de entrar no Orkut do meu ex, e talvez único namorado de verdade. Li quase todos os depoimentos que ele recebeu – espero que ele nunca saiba disso – tinham depoimentos de seis anos atrás. Nenhum meu. Me deu um aperto...
Foi como se eu tivesse passado rapidinho por ele. Que nossas vidas não tiveram laço nenhum.
O que é um depoimento né? Uma desculpinha medíocre pra demonstrar o que não dizemos. O que pulsa em nós e não exteriorizamos. Meia dúzia de palavras emocionadas e que da que um mês se perderam, de qualquer forma de sentido.
Uma brincadeira... Seja o que for. Como assim nenhum depoimento meu?
Logo eu, que já passei mais horas no telefone com ele, do que com qualquer outra pessoa. Que deixei ele me ver chorar. Choro qualquer. Choro de raiva, de magoa. Choro histérico de quem tem a certeza de que nada mais será como antes amanhã.
Foi pra ele que contei meus medos, segredos e futilidades. Eu que assisti todos os ensaios daquela banda de garagem e achei tudo a coisa mais linda do mundo. Fui eu, euzinha, que cantei e ouvi freneticamente Equalize pensando nele, amando ele... e descobri que era a musica dele com a outra.
Por alguns anos, meu melhor amigo. Por alguns meses, meu melhor namorado.
O coração disparava quando ele colocava aqueles braços em volta de mim e eu repetia mil vezes, pro espelho, que a gente era o exemplo de que menino e menina podem ser amigos de verdade sem segundas intenções.
Lembro do dia... Na porta da minha casa, eu me virei pra tocar a campainha e ele me chamou. Disse que precisava falar, e fazia tempo. Disse que gostava de mim há dois anos e que não podia ficar quieto por mais tempo. Fiquei muda! Fala alguma coisa se não, eu vou ficar sem graça. Dei um beijo nele. Foi lindo.
Já tivemos brigas homéricas pelo telefone, pessoalmente... Já ficamos um ano sem conversar e seis meses sem se ver, ou mais. Já voltamos atrás... Sempre em momentos distintos. “Mas como entender que os dois / Por serem feijão e arroz / Se encontram só de passagem”. Somos hiatos.
Numa conversa bem tensa, num dia muito frio, ouvi que nunca ninguém o tinha completado como eu. Senti o mesmo. É como se fossemos duas peças de um quebra-cabeça completo, que não se encaixam mais.
São tantas marcas que ele me deixou, que talvez sejam grandes demais pra serem digitadas em um depoimento. Intensas demais pra se divulgar abertamente. Importantes demais pra se reduzir em meia dúzia de palavras disfarçadas.