Tem uma musica genial que diz que família é um assunto complicado, mas que mesmo assim “o mais velho” mora ao lado. Por que se discute tanto? Diferem-se tanto? Precisa-se tanto?
Minha mãe me contou que quando eu tinha um aninho, chegou em casa e eu quis colo mas ela não me pegou. Sentou comigo e explicou que tinha acabado de chegar do hospital, que estava com dodói na barriga porque eu tinha ganhado um irmãozinho. E pouco tempo depois, dei de topa com ele em seus braços. Dizem que fiquei dois dias sem falar com ela.
Nos turbulentos anos de adolescência, não foi muito diferente. Brigas homéricas. Cansei de ouvir que “eu isso” e “eu aquilo”. Quando me sentia certa e com todos os motivos do universo pra estar revoltada, tinha que ouvir que vejo só o que eu quero. Que sou bravinha e intolerante.
É complicado brigar com pai e mãe. Tem verdades que aparentemente não podem ser ditas. A reciprocidade não funciona nesse âmbito.
Parece que isso tudo é um show de rock, de uma banda que eu amo loucamente. Eu na platéia, eles no palco cantando-gritanto-falando o que bem entendem. Parece que por mais que eu grite, cante ou implore... vai ter sempre essa distancia. O irmãozinho às vezes aparece com as mãozinhas pro alto do meu lado e outras lá no palco dando uma palinha. Mesmo que em alguns momentos, eu os ache um bando de babacas, vou sempre estar ali na platéia, comprar cada CD novo e saber todas as musicas de cor.
Família. Amigos. Amores. Quando falta um, a gente fica torto prum lado. Quando mais nova, fazia de tudo, que meu orgulho permitia pra não brigar com as minhas amigas, afinal eram tudo que eu tinha. Era nelas que eu me apoiava pra não afogar. A vida fica difícil assim, sem um barranco pra encostar os pés, sem o tal porto pra chegar.
Um dia... Era tarde e a gente estava na cozinha, eu e meu pai. Eu disse que ele era o melhor pai do mundo! Ele me disse que pra ser o melhor pai, era só ser pai - meu irmão puxou isso dele, de soltar algumas frases de efeito no meio de alguma conversa - faz sentido. A gente espera tanto deles que uma vírgula fora de contexto já dói. Pra mim tudo de família vem correndo e aos berros. É intenso demais. O inferno e o paraíso sem escalas.
O que eles querem compartilhar ecoa “microfonado” pelas sinapses do meu cérebro. Mas por mais que eu sinta e saiba com todas as fibras do meu ser, meus conceitos e ideais parecem bobos quando se abafam na multidão. Eu preciso do pai cheio de defeitos. Da mãe cheia de defeitos. Do irmão cheio de defeitos. Mas morro de medo de ser a preterida e desnecessária filha cheia de defeitos. Todo mundo tem um ponto fraco, eles são o meu. Por que não?
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